Artigo: Como as mudanças climáticas impactam a segurança alimentar no Brasil

Especialista aponta desafios para garantir o futuro da produção e do acesso aos alimentos para a população brasileira

As mudanças climáticas já estão transformando profundamente os sistemas alimentares no Brasil e no mundo. Essa relação é complexa e bidirecional: enquanto a produção, transporte e descarte de alimentos são responsáveis por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), o clima instável afeta diretamente a produção agrícola, a distribuição e o acesso aos alimentos.

Segundo Ana Maria Bertolini, Professora (UNICAMP) e Pesquisadora em Saúde Global e Sustentabilidade (USP), é urgente entender como essas mudanças impactam a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e aumentam os riscos para grupos já vulnerabilizados. Nesse cenário, as políticas públicas precisam se adaptar aos novos desafios.

Como as mudanças climáticas impactam a segurança alimentar?

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023) alerta que eventos extremos — como secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais — devem se tornar mais frequentes e intensos.

No Brasil, o aumento das médias de temperatura já afeta culturas sensíveis como o café. Alterações no regime de chuvas provocam secas prolongadas no semiárido e enchentes no Sul, interrompendo cadeias de abastecimento.

Esses impactos atingem de forma desproporcional agricultores familiares, pescadores, comunidades ribeirinhas, quilombolas e povos indígenas, que dependem diretamente dos recursos naturais e muitas vezes têm menor capacidade de adaptação.

Aumento dos preços e redução da qualidade nutricional

Pesquisas recentes (Mattar et al., 2025; Owino et al., 2022) indicam que o custo de produção tende a subir, elevando o preço final dos alimentos para o consumidor. Frutas, legumes e verduras são mais sensíveis ao clima, o que afeta a produtividade e a oferta.

Além disso, o estresse térmico e a concentração de CO₂ no ar podem reduzir o valor nutricional de grãos e hortaliças.

Segundo o boletim mensal da inflação de alimentos (setembro):

  • “In natura e minimamente processados”: +7,84%
    Ultraprocessados: +6,81%
  • Processados: +4,62%
  • Ingredientes culinários: +4,40%

Esses fatores contribuem para a sindemia global — a interação entre fome, má nutrição e doenças crônicas — intensificando desigualdades já existentes.

Políticas públicas e ações para mitigação

O Brasil vem retomando a agenda climática integrada à de combate à fome, com programas e iniciativas como:

  • Plano Brasil Sem Fome e Programa Bolsa Família: garantem renda e reduzem vulnerabilidade social;
  • Pronaf e Programa de Cisternas: fortalecem a agricultura familiar e o acesso à água;
    Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo): incentiva a produção sustentável e agroecológica;
  • Plano Safra da Agricultura Familiar: amplia crédito e reduz juros para pequenos produtores;
  • Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos: reduz impactos ambientais e garante o direito humano à alimentação adequada.

Em contextos urbanos, iniciativas como a Estratégia Alimenta Cidades e o Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana promovem sistemas alimentares mais resilientes, curtos e inclusivos.

Caminhos para o futuro

Integrar SAN e adaptação às mudanças climáticas é uma necessidade urgente. Políticas intersetoriais, incentivo à produção sustentável e fortalecimento da agricultura familiar são caminhos promissores para garantir que todos tenham acesso a alimentos saudáveis, mesmo diante de um clima cada vez mais desafiador.

Como destaca Ana Maria Bertolini: “Enfrentar a fome exige também enfrentar a crise climática.”

O Brasil tem a oportunidade de se tornar referência global na construção de sistemas alimentares resilientes e sustentáveis — uma estratégia capaz de garantir o futuro das próximas gerações.

Acessar o conteúdo