As soluções para os sistemas alimentares vêm dos territórios

Jessica Mota, gerente do laboratório Énois, nos contou um pouco das suas percepções sobre os resultados da COP30

A transformação dos sistemas alimentares passa por quem vive, produz e se organiza nos territórios. Essa afirmação ressoou antes e durante a COP30, a Conferência das das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas que teve Belém do Pará como palco em 2025. Uma afirmação ecoada principalmente por organizações da sociedade civil amazônica, mas também reafirmada por movimentos sociais e organizações Brasil e mundo afora.

Isso porque realizar uma COP na Amazônia teve o efeito de mostrar ao mundo uma realidade que quem trabalha na ponta já conhece: um país que carrega biodiversidade, técnicas e tecnologias milenares de produção e distribuição de alimentos com pouca ou baixa emissão de gases de efeito estufa, mas onde isso precisa ser mais valorizado.

Durante o evento, a Énois, organização que fortalece o bem viver por meio da informação comunitária, apresentou o Prato Firmeza, iniciativa que fala há dez anos sobre comida nas periferias por meio de produtos de comunicação para tornar o debate sobre alimentação mais acessível. Neste ano, chegamos à 10ª edição do projeto falando justamente de soluções alimentares e climáticas na Amazônia. 

Valorizar a culinária amazônica é manter a floresta em pé

A 10ª edição do Prato Firmeza divulgou, nos painéis da Zona Verde e Azul da COP e em eventos paralelos espalhados por Belém, histórias de comidas tradicionais amazônicas e modos de plantar, preparar, conservar e vender criados e perpetuados em restaurantes familiares da região.

A escolha pelo tema não foi somente porque a comida amazônica é deliciosa e muito menos para tratá-la como exótica, mas para trazer à tona o fato de que já temos, nas comunidades tradicionais e periféricas, as respostas de adaptação e mitigação climática que podem garantir segurança alimentar para elas e toda população. Isso em um cenário em que são justamente essas populações que mais sentem as mudanças climáticas e as que mais têm criado ferramentas de sobrevivência, com pouco apoio ou incentivo público e estatal.

Durante as secas no Amazonas, por exemplo, com a alta mortandade de peixes e efeito disso em todo o ecossistema hídrico da região, comunidades indígenas do rio Negro garantiram sua alimentação por meio da conservação do peixe piracuí com farinha, uma técnica registrada no Prato Firmeza Amazônia.

Já na COP 30, vimos movimentos sociais indígenas, quilombolas, de comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil brasileira mobilizadas em torno da pauta de “transição de sistemas alimentares” ou “transição de uso da terra”. Essa transição se faz necessária porque os sistemas alimentares, da forma como estão organizados hoje, contribuem com um terço dos gases do efeito estufa emitidos globalmente, segundo o Banco de Dados de Emissões para Pesquisa Atmosférica Global (EDGAR-FOOD) da União Europeia. Além disso, em 2024 no Brasil, a atividade agropecuária foi responsável por 74% de todas as emissões de gases do efeito estufa, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Por isso, tanto nos espaços oficiais da Conferência quanto na Cúpula dos Povos, imperou a defesa de políticas públicas de fortalecimento da agroecologia, de financiamento climático para agricultura familiar e povos indígenas, cadeias curtas com baixa pegada de carbono e pressão para encaminhar ações relacionadas à alimentação. Mas, apesar do evento em Belém ter iniciado com a assinatura da “Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas”, falta o tal mapa do caminho para realizar tudo isso, como aponta Analia Barreto, do Instituto Mapinguari:

“O grupo de trabalho tomou nota dos relatórios que são construídos, o que é importante, mas é insuficiente. Há um padrão de não articular mudanças na realidade de quem produz alimento nos territórios. Isso se acentua num contexto de forte disputa política: quando o debate avança para estipular metas, subsídios, desmatamento associado a commodities, regulação da agroindústria, o processo trava completamente. Enquanto isso, a agricultura familiar, os povos indígenas e as comunidades locais que alimentam a maior parte das populações dos países do Sul Global seguem sem acesso a financiamento climático”, ela aponta.

Avanços no apoio à quem produz comida saudável são tímidos

Vimos alguns acenos do governo brasileiro para medidas que fortalecem sistemas alimentares sustentáveis, como o reconhecimento de quatro Terras Indígenas e a delimitação de outras dez, além do Marco de Sistemas Alimentares e Clima para as Políticas Públicas, diretriz para orientar as políticas públicas que ligam a produção de alimentos às mudanças climáticas. 

Mas ainda é preciso haver uma mudança estrutural profunda para cuidar da alimentação das pessoas, que enfrenta forte pressão de grandes setores empresariais da agricultura. Ainda é preciso investir em políticas públicas para territórios indígenas, quilombolas e reservas agroextrativistas, subsidiar produtores de alimentos in natura e orgânicos, incentivar cadeias curtas com baixa emissão de carbono, taxar empresas e atividades da indústria alimentar altamente poluentes e reconhecer que, em se tratando de desmatamento e mudanças climáticas, estamos tratando do risco da perda de culturas tradicionais essenciais para nossa população, como a mandioca e o feijão, e do risco de cada vez mais pessoas passarem fome ou não poderem escolher o que comem.

Como afirmou Paulo Petersen, enviado especial da campanha Agricultura Familiar para a COP30, “nós, que trabalhamos com o conceito de Sistemas Alimentares, sabemos que é o sistema alimentar como um todo que precisa ser transformado. Aí é que entra a agricultura familiar e a agroecologia”. Paulo reforça que mais do que uma tecnologia, a agroecologia deve ser entendida como um enfoque de transformação dos sistemas alimentares, que integra políticas de inclusão, superação da pobreza e recuperação de áreas degradadas.

Eleições e contexto climático

No próximo ano, o Brasil passará por mais um ciclo eleitoral, com a escolha de presidente, governadores e governadoras, senadores e senadoras, deputados e deputadas. Esse contexto convida a uma reflexão mais ampla sobre as decisões que moldam o presente e o futuro do país, especialmente quando falamos de clima, território e alimentação.

E isso tem tudo a ver com a nossa vida agora e também com as eleições de 2026. O que a gente come, o preço do alimento, a preservação dos territórios e as soluções climáticas passam por decisões políticas.

Na Énois e com o Prato Firmeza, seguiremos falando de comida com quantas pessoas for possível, para que reconheçamos o trabalho de cozinheiras e cozinheiros populares Brasil afora e valorizemos a comida de verdade, saudável para a economia e para o corpo. Para que cada vez mais pessoas saibam que o que comem ou deixam de comer tem a ver com o clima, e que tem tudo a ver com o voto. Para que possamos seguir adiando o fim do mundo, um prato por vez.

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