Fome, obesidade e crise climática: três faces do mesmo sistema alimentar

Descubra como um novo sistema alimentar pode garantir saúde para as pessoas e futuro para o planeta

A fome, a obesidade e a crise climática costumam ser tratadas como problemas separados, mas são frutos de um mesmo sistema alimentar que aprofunda desigualdades, compromete a saúde das pessoas e pressiona o planeta.

De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade (2025) e a PNAD Contínua (2024), 31% dos adultos brasileiros convivem com a obesidade, enquanto 54,6 milhões de pessoas enfrentam algum grau de insegurança alimentar. Esses números expõem uma verdade dura: nosso modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos não está funcionando para alimentar a maioria.

Entenda por que fome e obesidade caminham juntas e como a crise climática se conecta diretamente a essa realidade.

O Brasil vive uma dupla carga de má nutrição

Cada vez menos brasileiros e brasileiras conseguem acessar alimentos frescos e nutritivos por falta de tempo para ir a mercados onde eles estão disponíveis, para cozinhar e, principalmente, de renda para comprá-los. Ao mesmo tempo, alimentos ultraprocessados – ricos em açúcar, gordura e aditivos – estão cada vez mais presentes no prato das famílias.

Isso está acontecendo porque a conta da alimentação saudável não fecha: segundo o Boletim da Inflação de novembro de 2025, enquanto o salário mínimo é de R$ 1.518, a cesta de alimentos saudáveis (NEBIN) para uma família de três pessoas chega a R$ 1.194. Ou seja, o que deveria ser o básico para garantir saúde consome quase toda a renda da população.

Assim, alimentos de verdade se tornam inacessíveis, e os produtos ultraprocessados, mais baratos e práticos para consumir, ocupam o espaço que deveria ser das frutas, verduras e legumes.

Por que alimentos saudáveis são menos acessíveis?

A resposta está no fato de que, no sistema alimentar atual, prioriza-se o lucro sobre o acesso. Portanto, quanto menos lucrativo um alimento for, menos incentivos e condições haverão para sua produção e comercialização. 

Alimentos saudáveis são menos lucrativos porque:

  • São sazonais, o que limita oferta constante ao longo do ano
  • Demandam mais mão de obra, já que o cultivo e a colheita são menos mecanizados
  • Dependem de cadeias menos concentradas e com menor escala, produzidas majoritariamente por agricultores familiares
  • Têm menor durabilidade, o que aumenta perdas e custos logísticos

A produção desses alimentos depende do clima, de práticas agrícolas mais cuidadosas e de uma cadeia de distribuição mais eficiente para preservar sua integridade. Isso aumenta custos e reduz o lucro.

Ultraprocessados são mais lucrativos porque:

  • Usam matérias-primas baratas e altamente disponíveis, como farinhas refinadas, óleos, gorduras hidrogenadas, açúcar, sódio e aditivos
  • São produzidos em larga escala, em cadeias industriais padronizadas e apoiadas por monoculturas
  • Têm prazos de validade longos, graças ao uso de conservantes e processos que prolongam a durabilidade
  • Têm distribuição simplificada, pois não precisam de refrigeração e mantêm as características por muito mais tempo

Mas apesar de econômicos para fabricantes e varejistas, esses produtos custam caro para a saúde pública e para o meio ambiente.

A crise climática está diretamente ligada ao que comemos

A relação entre alimentação e clima é profunda. Colocar os alimentos saudáveis no centro da produção é essencial para preservar o planeta, porque eles:

  • Podem ser produzidos em agroflorestas e hortas urbanas, regenerando ecossistemas
  • Devolvem nutrientes ao solo
  • Aumentam a biodiversidade
  • Ajudam a capturar carbono da atmosfera
  • Melhoram a saúde da população

Enquanto isso, os ultraprocessados que dominam o mercado:

  • Dependem do desmatamento para a expansão de monoculturas em larga escala
  • Consomem grandes quantidades de água e agrotóxicos
  • Exigem processamento industrial
  • Vêm em embalagens plásticas que geram resíduos
  • Contribuem para obesidade e doenças crônicas não transmissíveis

Como transformar esse cenário?

O mesmo sistema que aumenta a fome e a obesidade também acelera o aquecimento global. Esses desafios têm a mesma raiz e podem ser enfrentados quando colocamos a comida saudável como denominador comum.

Seu cultivo restaura ecossistemas, gera renda, aumenta a disponibilidade de alimentos saudáveis e o acesso à alimentação digna, o que tem potencial de reduzir a necessidade de alimentos ultraprocessados que poluem o meio ambiente e causam doenças como a obesidade.

Para criar esse sistema alimentar que regenera o planeta, reduz desigualdades e promove saúde, a transformação precisa ir do campo ao prato por meio de ações como:

A alimentação saudável promove uma população e um planeta equilibrados

Fome e obesidade parecem extremos opostos, mas nascem do mesmo sistema que prioriza lucro sobre nutrição, quantidade sobre qualidade e monoculturas sobre biodiversidade.

Transformar esse sistema é urgente e possível. Ao colocar a alimentação no centro da agenda climática, abrimos caminho para um futuro mais justo, saudável e sustentável.

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