O investimento social filantrópico e privado tem papel estratégico na promoção da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) no Brasil. Uma análise de iniciativas financiadas por empresas e organizações privadas realizada pela Fundação José Setúbal na pesquisa “Investimento e Apoio Empresariais para a Garantia da Soberania e Segurança Alimentar no Brasil 2020 – 2023” revela avanços importantes, mas também aponta desafios estruturais e oportunidades claras para ampliar impacto, escala e alinhamento desse investimento com políticas públicas de garantia de SAN.
Confira os principais achados do mapeamento nacional de ações financiadas com destaque para padrões de investimento, lacunas territoriais, foco temático e caminhos para tornar o investimento social privado mais efetivo e transformador.
Projetos concentram a maior parte do financiamento social privado
Entre as 681 ações mapeadas, 472 foram classificadas como projetos, o que confirma a preferência do financiamento social privado por iniciativas com características específicas:
- Público-alvo delimitado (grupo ou localidade específica);
- Objetivos de curto ou médio prazo;
- Escopo e abrangência menores quando comparados a programas estruturantes.
Embora projetos permitam respostas mais ágeis e direcionadas, eles não possuem a mesma capacidade de escala e sustentabilidade que programas de longo prazo. Esse padrão se reflete também no tempo de duração das iniciativas:
- Apenas 45,37% das ações ocorreram por mais de dois anos consecutivos;
- 101 ações (14,83%) estiveram associadas a motivações emergenciais, geralmente reativas a crises.
Ou seja, há uma oportunidade concreta para que o financiamento social privado avance para iniciativas mais duradouras, com foco em impacto contínuo e transformação estrutural.
Localização das ações revela preferência pela proximidade
A distribuição territorial das iniciativas financiadas no período é desigual e reforça a concentração histórica de investimentos no eixo Sul-Sudeste:
- Sudeste: 240 ações
- Sul: 207 ações
- São Paulo liderava o ranking de quantidade de iniciativas, com 146 ações (21,44%)
- Paraná apareceu em segundo lugar, com 125 ações (18,36%)
Em contraste, a região Norte tinham o menor número de iniciativas – em Roraima (3), Amapá (8) e Acre (9), por exemplo, apareceram menos de 10 em cada estado.
Além disso, o financiamento social privado tende a ocorrer próximo à sede das empresas:
- 84 de 98 empresas realizaram ao menos uma ação no estado onde estão sediadas;
- Em média, 52% das ações acontecem próximas às sedes;
- São Paulo concentra 37 das 98 sedes empresariais mapeadas.
Esse padrão revela uma tendência desencontrada da realidade da insegurança alimentar no país. Expandir o financiamento social privado para territórios historicamente menos atendidos, especialmente Norte e Nordeste, é essencial para reduzir desigualdades regionais e ampliar o impacto social.
Objetivos voltados à empresa e à respectiva cadeia produtiva recebem mais investimentos
Outro achado relevante diz respeito ao foco dos investimentos. As ações financiadas priorizam objetivos diretamente relacionados à empresa e à sua própria cadeia produtiva.
- 319 ações são voltadas à adoção de boas práticas e princípios de responsabilidade empresarial, com foco em processos internos e cadeias de produção;
- 201 ações são relacionadas à produção de alimentos e feitas com produtores vinculados à cadeia da empresa;
- 276 ações são voltadas para alívio da fome, majoritariamente projetos pontuais e campanhas de doação de curta duração.
Apesar da relevância dessas iniciativas, o estudo aponta que elas podem avançar no impacto se diversificarem o públicos-alvos, e também evoluir no monitoramento, transparência e mensuração de impacto social. A análise dos públicos-alvo mostra que apenas 1 em cada 5 ações teve como público-alvo direto pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, que são as mais afetadas pela insegurança alimentar.
Gargalos da cadeia produtiva seguem pouco explorados
Embora as empresas atuem em todos os elos da cadeia – produção, logística, consumo – os investimentos sociais se concentram nas pontas. Poucas iniciativas investem em solucionar problemas nas etapas de armazenamento, transporte e processamento de alimentos, que estão diretamente relacionadas às perdas e ao desperdício, por exemplo.
Investir nesses elos menos visados da cadeia representa, portanto, uma das maiores oportunidades de impacto do financiamento social privado, tendo benefícios sociais, ambientais e econômicos que se relacionam com a transformação dos sistemas alimentares como um todo.
Convergência entre investimento social privado e políticas públicas
Os dados indicam também uma baixa convergência entre os investimentos empresariais e as políticas públicas de SAN, o que reduz o potencial de contribuição do setor privado para resultados estruturais em áreas críticas da cadeia de produção.
Nesse contexto, as parcerias entre empresas e organizações da sociedade civil (OSCs) surgem como um caminho estratégico:
- OSCs detêm conhecimento sobre territórios e públicos-alvo;
- Possuem expertise no desenvolvimento de iniciativas de impacto;
- Podem gerar maior alinhamento com políticas públicas e resultados de longo prazo.
Caminhos para fortalecer o impacto das empresas na realidade da SAN
O investimento social privado no Brasil desempenha um papel relevante na promoção da Segurança Alimentar e Nutricional, mas ainda enfrenta desafios importantes. Os dados apontam oportunidades claras para:
- Desenvolver programas de longo prazo, indo além de projetos pontuais;
- Expandir investimentos para territórios fora do eixo Sul-Sudeste;
- Atuar em etapas intermediárias da cadeia produtiva, como na redução de perdas e desperdícios;
- Ampliar o foco em populações vulneráveis;
- Fortalecer OSCs que atuam em políticas públicas de redução do problema de forma definitiva.
Ao avançar nessas frentes, o financiamento social privado pode se tornar um vetor ainda mais potente de transformação social, contribuindo para o enfrentamento da fome e das desigualdades no Brasil de forma estrutural.