PNAD Contínua 2024: Brasil avança no combate à fome, mas 54,7 milhões ainda convivem com insegurança alimentar

Apesar dos avanços na segurança alimentar, o aumento da insegurança leve em relação a 2013 mostra que garantir alimentação adequada e de qualidade para todos continua sendo um desafio no Brasil.

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgados pelo IBGE, mostram avanços importantes na segurança alimentar no Brasil, mas o desafio para garantir alimentação adequada e saudável para todos ainda persiste.

Entre 2023 e 2024, a proporção de domicílios em insegurança alimentar caiu de 27,6% para 24,2%, o que representa 2,2 milhões de lares a menos vivendo nessa situação. Hoje, 3 em cada 4 brasileiros estão em segurança alimentar: um avanço significativo, resultado de políticas públicas, programas sociais e do engajamento da sociedade civil.

Ainda assim, 1 em cada 4 brasileiros convive com algum nível de insegurança alimentar, o que corresponde a 54,7 milhões de pessoas. Dentre elas, 6,5 milhões vivem em situação de fome, equivalentes a 3,2% dos domicílios brasileiros.

Embora o país tenha reduzido os casos de fome moderada e grave, houve aumento da insegurança alimentar leve em relação a 2013, quando o Brasil havia saído do Mapa da Fome. Esse dado aponta que muitas famílias ainda enfrentam dificuldades para manter uma alimentação saudável e de qualidade, migrando para padrões de má alimentação, com reflexos diretos na saúde nutricional da população.

Avanços conquistados com políticas públicas

Entre 2023 e 2024, o percentual de domicílios em qualquer nível de insegurança alimentar recuou de 27,6% para 24,2%. Esse resultado é fruto de políticas públicas estruturantes, como:

  • Programa Bolsa Família, garantindo transferência de renda a famílias vulneráveis;
  • Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que assegura refeições saudáveis a milhões de estudantes;
  • Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), apoiando agricultores familiares e fortalecendo cadeias locais de produção;
  • Aumento real do salário mínimo e melhora no emprego, fortalecendo a capacidade de compra das famílias.

Além do poder do Estado, a sociedade civil tem desempenhado papel decisivo. Bancos de alimentos, cozinhas solidárias e instituições comunitárias ampliam o alcance das políticas, garantindo que ninguém fique para trás.

Desafios que exigem ação contínua

Apesar dos avanços, o Brasil ainda enfrenta um desafio triplo:

  1. Proteger o poder de compra das famílias, especialmente diante da inflação e da instabilidade econômica;
  2. Fortalecer a resiliência climática, garantindo que mudanças climáticas não comprometam o acesso à comida;
  3. Garantir alimentação de qualidade e nutritiva, combatendo a má nutrição e a obesidade, principalmente entre crianças.

O olhar do Pacto Contra a Fome sobre o cenário da segurança alimentar no Brasil

Maria Siqueira, codiretora executiva do Pacto Contra a Fome:

“Os novos dados do IBGE são motivo de celebração, mas deixam um alerta. Eles mostram que quando o Brasil aposta em políticas públicas sólidas, como a transferência de renda, o PNAE, o PAA e o fortalecimento do emprego e da renda, a fome recua. É preciso reconhecer também o papel fundamental da sociedade civil organizada, por meio de cozinhas solidárias, bancos de alimentos e instituições que atendem pessoas em situação de alta vulnerabilidade. Apesar de positivos, os indicadores também nos lembram que conquistas sociais só se sustentam com estabilidade e compromisso político. A segurança alimentar precisa ser uma prioridade permanente do Estado, não uma agenda que avança e retrocede conforme os ventos políticos. Agora, o desafio é ainda maior: enfrentar os efeitos da crise climática, da inflação e da má nutrição. É tempo de garantir que o direito à alimentação adequada seja um pilar estruturante do nosso desenvolvimento.”

Ricardo Mota, gerente de inteligência estratégica do Pacto Contra a Fome:

“Os novos dados do IBGE mostram uma melhora importante nos indicadores de segurança alimentar, mas ainda temos um desafio triplo pela frente: proteger o poder de compra das famílias, fortalecer a resiliência climática e garantir a qualidade nutricional da alimentação em todas as políticas públicas. O aumento da obesidade, especialmente entre as crianças, é um alerta grave — porque compromete não só a saúde imediata, mas também o futuro dessas gerações. Precisamos de soluções estruturantes que enfrentem as causas da pobreza e da desigualdade e assegurem acesso estável à renda e à comida de qualidade, sobretudo na infância, quando se formam os hábitos e as oportunidades de desenvolvimento pleno.”

Um compromisso de todos

O Pacto Contra a Fome reforça que a segurança alimentar deve ser tratada como política de Estado, transversal a áreas como saúde, educação, agricultura e meio ambiente. Só assim será possível garantir que comer bem seja um direito efetivo de todos, e não um privilégio de alguns.

O avanço é real, mas o trabalho continua. Para transformar o direito à alimentação adequada em uma realidade para todos, é necessário compromisso coletivo, políticas públicas consistentes e mobilização de toda a sociedade.

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