O Brasil segue fora do Mapa da Fome da ONU e reduziu a insegurança alimentar severa ao menor nível da história. Mas o custo de uma dieta saudável segue alto. O Pacto Contra a Fome traduz os dados do SOFI 2026 e da cesta NEBIN para o contexto brasileiro.
O relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo” (SOFI 2026), da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), confirma: o Brasil segue fora do Mapa da Fome, com subalimentação abaixo de 2,5% da população pelo segundo ano consecutivo. A insegurança alimentar severa caiu ao menor nível da série histórica, chegando a 0,6% da população, contra 6,6% no triênio anterior. O que significa que mais de 5 milhões de pessoas deixaram essa condição.
A velocidade com que o Brasil recupera-se contribuiu com o avanço da região. Essa é uma conquista coletiva que merece ser celebrada como resultado de priorização de investimento em políticas públicas, mobilização social, participação da sociedade civil e governança. Mas manter-se fora do Mapa da Fome não é o fim da história.
O que os números divulgados pela ONU contam?
Um dos pontos mais importantes é entender por que a FAO usa indicadores diferentes e como eles se complementam:
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- Prevalência de Subalimentação (PoU): mede se a energia alimentar consumida é suficiente para uma vida ativa e saudável. É o indicador do Mapa da Fome.
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- Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (FIES): usada globalmente pela FAO, e sua versão brasileira, a EBIA (aplicada pelo IBGE na PNAD Contínua), captam a percepção das famílias sobre o próprio acesso à comida — e revelam desigualdades regionais, sociais e raciais que o indicador global não enxerga sozinho.
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- Custo e Acessibilidade de uma Dieta Saudável (CoAHD): responde a outra pergunta “Quanto custa comer bem, e quem consegue pagar por isso?”.
A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) continua sendo fundamental para compreender a realidade das famílias brasileiras, identificar desigualdades e orientar políticas públicas mais efetivas. Ela foi validada especificamente para revelar como a insegurança alimentar se distribui entre regiões, faixas de renda, raça, gênero, campo e cidade. É algo que uma escala como a FIES – pensada para comparação global – não tem como fazer.
Quanto custa comer bem no Brasil?
Enquanto o mundo gasta em média US$ 4,28 por pessoa ao dia (PPC – paridade por poder de compra) com uma dieta saudável, o Brasil está entre os países onde comer bem custa mais caro que a média global, com um custo de US$ 4,89.
Para traduzir isso à realidade brasileira, o Pacto Contra a Fome monitora a Cesta NEBIN, composta por 84 itens in natura e minimamente processados, construída a partir do Guia Alimentar da População Brasileira e da referência EAT-Lancet, calculada mensalmente em 10 regiões metropolitanas com dados reais de compra domiciliar.
Em 2025, o custo mensal da Cesta NEBIN foi R$ 413,00 por pessoa. Considerando despesas alimentares e outros gastos como moradia e transporte, quase um terço dos brasileiros não consegue pagar por uma dieta saudável sem comprometer as outras despesas básicas.
Quais são as intervenções para resolver o problema?
A FAO aponta que 70% a 75% do custo ao consumidor está no meio da cadeia: processamento, logística, distribuição, varejo, margem. E vem sinalizando em seus relatórios que reduzir o custo da dieta saudável precisa estar em três frentes: cadeias de abastecimento agroalimentar (oferta), ambientes alimentares e comportamento do consumidor/poder de compra (demanda).
A publicação também aponta que choques climáticos, de conflitos e macroeconômicos não afetam todos os alimentos igualmente. Perecíveis (frutas, vegetais, proteína animal) sofrem muito mais do que grãos, por causa da perecibilidade, sazonalidade e intensidade de insumo.
O que o indicador não mostra: a pesquisa Comportamento Alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável, idealizada pelo Pacto Contra a Fome e realizada pelo Instituto Pensi, aponta que fatores comportamentais, barreiras estruturais e ambientes alimentares pesam tanto quanto o custo: o tempo e a carga mental para escolher, comprar, preparar e conciliar as preferências familiares encontram um ambiente que favorece a escolha de ultraprocessados.
Esse cenário evidencia que a segurança alimentar e nutricional depende das condições econômicas, dos preços dos alimentos, da disponibilidade de alimentos saudáveis no território e dos ambientes alimentares que influenciam o acesso a diferentes tipos de alimentos.
O que vem a seguir: prioridades para os governos do ciclo 2026-2030
Ao mesmo tempo em que o Brasil avança na redução da fome, convive com o aumento da obesidade e a persistência das deficiências de micronutrientes e outras carências nutricionais específicas.
Entre 2004 e 2026, a prevalência de obesidade entre adultos aumentou 118%, refletindo transformações nos padrões alimentares e nos ambientes em que as pessoas vivem. E as estimativas são alarmantes: de acordo com o Atlas Mundial da Obesidade (2022), se nada for feito, o Brasil estará na 5º posição no ranking de países com o maior número de crianças e adolescentes com obesidade em 2030, com apenas 2% de chance de reverter essa situação se nada for feito.
Reduzir o custo da dieta saudável, ampliar o acesso e enfrentar o avanço da obesidade e da má nutrição exige resposta integrada e coordenada entre rede de proteção social, abastecimento alimentar, agricultura familiar fortalecida, regulação de ambientes alimentares. Também é preciso considerar a segurança alimentar como um eixo central em relação às mudanças climáticas e eventos climáticos extremos.
O progresso deve ser protegido, acelerado e estendido para garantir melhor produção, melhor nutrição, melhor ambiente e melhor vida. Comer bem não pode ser um privilégio, mas um direito de todos os brasileiros.
O Pacto Contra a Fome trabalha justamente nesta ponta: conectando governo, setor privado, academia e sociedade civil para colocar a segurança alimentar no centro da agenda de 2026-2030.