Artigo: COP30 mostrou que o futuro climático depende da transformação dos sistemas alimentares

Confira os aprendizados de quem participou da conferência e os caminhos para sistemas alimentares mais resilientes

A COP30 na Amazônia carregou um simbolismo profundo e suas impressões ainda devem ecoar por muito tempo. Realizada em Belém, a conferência colocou no centro do debate as experiências de povos e negociadores que sentem, no dia a dia, as contradições entre sistemas alimentares frágeis e os efeitos acelerados das mudanças climáticas.

No Sul Global, esses impactos já são uma realidade. Durante a COP, Belém enfrentou ondas de calor extremo seguidas por tempestades e alagamentos. Esses eventos não podem ser separados das vulnerabilidades estruturais que marcam a vida de milhões de pessoas: ausência de saneamento básico, pobreza extrema e desigualdades urbanas profundas. Falar sobre clima, portanto, é necessariamente falar sobre condições de vida, e de alimentação.

A forma como produzimos e consumimos alimentos está no coração da crise climática. No Brasil, a alimentação responde pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa, em proporção muito superior à média global. Isso se deve ao nosso modelo produtivo baseado na exportação de commodities e em práticas que pressionam ecossistemas essenciais.

Dos nove limites planetários, sete já foram ultrapassados e a maioria deles se relaciona diretamente à produção de alimentos. Os sistemas alimentares são, ao mesmo tempo, causa e vítima da crise climática. E também revelam suas injustiças, já que a fome nasce da desigualdade e da pobreza, ambas agravadas pelos eventos climáticos extremos.

Por isso, não surpreende que o tema alimentação, que já ganhava espaço em COPs anteriores, tenha ocupado lugar ainda mais evidente em Belém. A quantidade expressiva de painéis dedicados ao assunto refletiu essa centralidade. Ainda assim, persiste um grande descompasso entre a importância do tema e seu peso real nas negociações oficiais e nos fluxos de financiamento global.

Os resultados formais da COP30 ficaram aquém do esperado. A promessa de uma conferência orientada para a implementação esbarrou nos limites de um modelo que exige consenso total entre países com realidades muito distintas. Mesmo assim, avanços incrementais importantes se consolidaram. O chamado “mapa do caminho” mobilizou atores diversos e abriu discussões que seguirão ao longo da presidência brasileira da COP.

Paralelamente, iniciativas fora das negociações formais avançaram. O Fundo Amazônico entrou em uma nova fase, com governança fortalecida e novas doações voltadas à preservação e ao desenvolvimento sustentável. O Fundo Florestas para Sempre foi estruturado como mecanismo permanente de apoio à conservação, restauração e proteção de territórios tradicionais. E o Pix do Clima inovou ao facilitar doações diretas de pessoas físicas e instituições para ações de mitigação e adaptação. São caminhos que ampliam o financiamento territorial e oferecem alternativas diante da lentidão dos mecanismos multilaterais.

Representar o Pacto Contra a Fome na COP30 foi uma oportunidade importante para qualificar o debate sobre alimentação e clima. No painel “Food, Climate and Territory”, da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, destaquei que o Brasil possui uma das relações mais diretas entre sistema alimentar e emissões do mundo e que qualquer estratégia de adaptação climática precisa colocar a segurança alimentar no centro.

O mediador Taciano Custodio (Rabobank Brasil) e os participantes do painel “Food Climate and Territory”: Ricardo Mota (Pacto Contra a Fome), Jessica Mota (Prato Firmeza e Énois Laboratório de Comunicação), Mónica Guerra Rocha (Instituto Comida do Amanhã) e Oliver Camp (GAIN).

As soluções estão nos territórios. Elas passam por práticas agrícolas regenerativas, fortalecimento da agricultura familiar, integração entre produção e conservação, redução do desperdício de alimentos e financiamento contínuo capaz de gerar escala. A adaptação climática só se concretiza quando governos, sociedade civil, setor privado, academia e comunidades atuam de forma coordenada.

Nossa codiretora executiva, Juliana Malheiro Plaster, reforçou essa visão no painel “Sistemas Alimentares: Prosperidade que Vem da Terra”, promovido pelo Sistema B Brasil e Latimpacto. Em sua fala, destacou que a fome é a métrica moral da crise climática, uma síntese poderosa e incontornável. Não existe futuro climático seguro sem transformar profundamente a forma como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos.

A COP30 deixou claro que o Brasil tem condições únicas para liderar essa transição. Podemos erradicar a fome e regenerar nossos sistemas alimentares simultaneamente. Para isso, precisamos de coordenação, financiamento, políticas públicas robustas e compromisso coletivo.

A conferência não encerra essa discussão. Pelo contrário: marca o início de um ciclo em que a alimentação finalmente assume o papel estruturante que sempre deveria ter ocupado na agenda climática global.

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